É possível recuperar uma pessoa dependente em crack?

Um caminho com volta Especialista na recuperação de dependentes em crack, o psiquiatra Auro Danny Lescher, da Universidade Federal de São Paulo, destaca que os tratamentos devem focar no resgate da dignidade. “Precisamos ‘reencantar’ essas pessoas – e não enxergá-las como a escória da sociedade.” Confira abaixo os principais trechos da entrevista para revista ÉPOCA:

É possível recuperar uma pessoa dependente em crack?
A u r o L e s c h e r: Sim. É possível e desejável, mas depende de muitas coisas por tratar-se de um fenômeno extremamente complexo, multidimensional e cheio de interfaces. O encontro entre uma droga tão forte em termos de alterações de fluxos psíquicos com sujeitos atordoados e desencantados é suficientemente forte para fazer com que eles passem a viver na idade da pedra.   A dependência ao crack produz uma situação tão dramática na vida do indivíduo que é pouquíssimo provável o uso recreativo ou ocasional da substância.

O que significa viver na idade da pedra?
A u r o L e s c h e r: Estou aproveitando o duplo sentido do termo, já que o crack é uma pedra, e também estou  falando do fato de que os usuários dessa substância passam a ter uma existência extremamente primitiva e radicalmente desenraizada.

Como resgatá-los e trazê-los de volta a uma vida livre da dependência?
A u r o L e s c h e r: A recuperação passa pelo “reencantamento” do sujeito. Os modelos mais bem- sucedidos de tratamento questionam o pressuposto equivocado de que o usuário é um caso perdido, ou o resíduo de uma sociedade desiludida. É preciso um enfrentamento mais responsável. As tecnologias sociais, médicas e psicológicas de sucesso não admitem que o indivíduo esteja inexoravelmente preso na idade da pedra. O grande desafio é oferecer oportunidades de encantamento, enraizamento e pertencimento para essas pessoas.

Existe uma linha única de tratamento bem- sucedida que pode ser replicada e dar conta do problema?
A u r o L e s c h e r: Não. Diante de uma situação tão complexa quanto a dependência ao crack, podemos recorrer a vários mecanismos e estratégias, das mais superficiais, como rezas e o programa de 12 passos, (criado nos Estados Unidos em 1935 para tratamento de alcoolismo e hoje usado para quase todo tipo de dependência química), até outros mais elaborados, como psicoterapia, medicamentos e, eventualmente, internações. Estas últimas, no entanto, nunca devem ser compulsórias. Todas essas ações devem ter uma l inha em comum que é a recuperação da dignidade, o resgate do sujeito dentro de uma perspectiva humana.

Alguma terapêutica medicamentosa tem se mostrado eficaz?
A u r o L e s c h e r: Sim, mas nada específico ou que possa ser encarado como uma panacéia que resolverá de uma vez o problema da dependência do crack. Não há droga milagrosa, mas substâncias muito bem estudadas na clínica psiquiátrica que ajudam o sujeito. São medicações que interferem na ansiedade e na impulsividade. Os medicamentos devem ser entendidos como mais um ingrediente no grande “sopão” que são as ações de recuperação dos usuários.

Os consultórios de rua e centros de atendimento 24 horas também têm resultados positivos?
A u r o L e s c h e r: Sem dúvida. Há uma experiência interessante nesse sentido na Bahia, liderada pelo psiquiatra Antônio Nery Filho. Iniciativas como essa e tantas outras  realizadas Brasil  a fora funcionam desde que consigam promover uma aproximação com esses seres humanos em frangalhos emocional e psiquicamente. O que não podemos é criminalizar uma questão que é médica e de saúde e enxergar o usuário como o lixo ou a escória da sociedade. Precisamos respeitar a dor que essas pessoas estão vivendo e que não é apenas dele, mas também de uma sociedade em desencanto.

A ONG francesa Ego criou um grupo de teatro com dependentes de crack. Essa é uma forma de gerar esse “reecantamento” de que o senhor fala?
A u r o L e s c h e r: Sim, desde que isso faça sentido para o sujeito. O que encanta é aquilo que conversa com a alma da pessoa, que traz sentido para sua vida. Não é simplesmente uma técnica artística que produz o encantamento. Para uma pessoa pode ser teatro; para outra, um desenho animado que passa na televisão; e, para uma terceira, um emprego com carteira assinada.

Mas como saber o que encanta cada usuário?
A u r o L e s c h e r: A chave desse entendimento está no contato humano. Por isso, é preciso todo um leque de profissionais de ajuda, com as mais diversas formações. A luz no fim do túnel passa pela recuperação da dignidade dos usuários. A idade da pedra significa privação de dignidade.

As políticas de redução de dano são úteis no trabalho de recuperação?
A u r o L e s c h e r: Sim, essas políticas surgiram na Europa e nos Estados Unidos nos anos 80 e representam um grande avanço no enfrentamento do fenômeno das drogas. Um exemplo de ação de redução de dano associada ao crack é a distribuição de manteiga de cacau para tratar a rachadura nos lábios dos usuários e de cachimbos de plástico para individualizar o consumo da droga, evitando ou reduzindo a transmissão de tuberculose. É uma abordagem que não é frontal ao problema, mas é importante e tem resultados positivos.